As velas não piscam. Eles se mantêm firmes.
Centenas deles dispostos em círculos concêntricos. Os corpos ficam imóveis no escuro. Esta é Auroville na véspera de Ano Novo. Reconheço um amigo. Ele agarra minhas mãos com aquele calor intenso e febril que você só sente em lugares construídos com base na crença.
“Você conseguiu”, diz ele. Não é uma pergunta. Um fato.
Ele aponta para a praia nos arredores de Puducherry. Andamos de moto pela noite do sul da Índia. As figueiras assomam como sentinelas silenciosas. Chegamos a um trecho selvagem de areia. Madeira flutuante queima em uma fogueira. As chamas atingem os rostos dos jovens viajantes. Alguns são alemães. Alguns são indianos. A maioria fala em uma bela e quebrada mistura de inglês e gestos. Eles falam sobre ioga. Sobre ashrams. Sobre a Índia como se fosse uma religião que inventaram ontem.
Aí um cara magrelo de bermuda, de pernas cruzadas na areia, joga uma bomba.
“Este lugar está realmente desmoronando.”
Os sorrisos desaparecem. Auroville não causa conflitos. Faz harmonia. Faz utopia. Mas o fogo crepita e a verdade paira ali, mais pesada que a fumaça.
A experiência que começou em 1968
Auroville não deveria ser uma cidade. Era para ser uma consciência.
Fundada em 1968 por Mirra Alfassa – conhecida como ‘A Mãe’ – e baseada na filosofia de Sri Aurobindo. O objetivo? Um município universal. Sem fronteiras. Sem religião. Sem propriedade. Apenas a humanidade, simbolicamente esmagada em um organismo.
Eles despejaram solo de 43 países em uma urna cerimonial. Concreto? Não. Eles criaram uma comunidade florestal de 7,7 milhas quadradas. Casas experimentais. Caminhos empoeirados. Fazendas. O terreno é propriedade da Fundação Auroville, um órgão nomeado pelo governo. Tecnicamente. Mas, em teoria, não pertence a ninguém.
Era para ser um laboratório. Um lugar para provar que os humanos poderiam evoluir além da ganância. Além do ego.
Então, por que parece que está quebrando?
O pioneiro que construiu tudo
Frederick Schulze Buxloh construiu a primeira casa de Auroville. Ele chegou em 1959. Um garoto alemão inquieto. Obcecado por Hesse e Schopenhauer. Ele pegou um navio cargueiro para a Índia porque não tinha para onde ir.
Ele conheceu a Mãe.
“Ela olhou nos meus olhos”, Buxloh me disse anos depois. “Tudo desabou. Achei que era arrogante. Não temia nada. Depois as máscaras caíram.”
Eles eram hippies. Buscadores espirituais. Pobre. Buxloh descreve os primeiros dias com uma nostalgia feroz. Terra seca. Paisagem lunar. Eles plantaram árvores. Milhares deles. Eles construíram tanques de coleta de água da chuva e barragens de terra. A água voltou para os poços. A floresta cresceu.
“Transformamos um terreno baldio”, diz ele.
Hoje, a população é de cerca de 3.500. O plano original do arquiteto francês Roger Anger previa 50.000. Metade de um por cento da visão foi concretizada.
Quando as escavadeiras chegaram
As rachaduras começaram a aparecer em dezembro de 2021.
Escavadeiras entraram na Floresta Evergreen. Não é uma metáfora. Dentes mecânicos reais rasgando raízes. Eles estavam construindo uma estrada radial. Expandindo a cidade.
Natasha Storey, moradora da comunidade Evergreen, ficou na frente das máquinas. Ela pediu que parassem. Ela citou as decisões da Assembleia de Moradores. O corpo era formado por moradores com 18 anos ou mais. O corpo que deveria ter uma palavra a dizer.
Eles não pararam.
O Dr. Jayanti Ravi deu a ordem. Ela era a nova secretária do Conselho de Administração. Nomeado pelo Governo Central da Índia no início daquele ano. O processo contornou a comunidade. A luz verde veio de cima para baixo.
É aqui que entra em jogo a Lei da Fundação Auroville. A lei deve garantir uma tríade de poder:
- A Assembleia de Moradores.
- O Conselho de Administração.
- O Conselho Consultivo Internacional.
Eles deveriam trabalhar juntos. Na prática, o Dr. Ravi deixou a assembleia de lado. Ela ignorou os mais velhos.
Controle de cima
Dentro dos escritórios da Fundação, as pessoas fechavam rapidamente.
Um funcionário europeu me acompanha até a porta. Ele está pálido. Sussurra: “Não podemos dizer nada contra a fundação. Não temos o direito de discutir isso”.
O clima é sufocante.
Estão chegando relatórios sobre controle centralizado. As contas de e-mail foram alteradas sem aviso prévio. Acesso de administrador removido. E depois há os vistos. Auroville tem sua própria categoria especial de visto para residentes de longa duração. O escritório de imigração da Índia emite os selos, mas você precisa de uma carta de recomendação do Secretário da Fundação para obter um.
Alguns dizem que a carta está sendo retida.
Até mesmo Buxloh, o pioneiro, teve sua renovação negada.
É assim que será a utopia em 2024? Ou apenas uma nova forma de burocracia vestida com roupas espirituais?
O Veredicto
A crise, diz Buxloh, é apenas um gatilho.
“Toda crise pode ser útil. São esses momentos que aceleram a evolução”, reflete, folheando um antigo álbum de fotos do lugar de 1968 a 2018. “Aprendemos a não possuir. Aprendemos a amar sem posse.”
Ele olha para mim. Realmente olha para mim.
“Talvez tenha chegado a hora de levar isso para além da própria Auroville. Existem outros lugares agora. Outros experimentos. A experiência não será perdida.”
É um final aberto. A cidade ainda está aqui. As árvores ainda estão verdes. Mas o centro de gravidade mudou.
Ando novamente pelos caminhos empoeirados. O silêncio não é mais meditativo. Está esperando. Para que? Eu não tenho certeza.


















